Sempre que der tempo.

A voz da experiência

fevereiro 3, 2010 · 7 Comentários

O texto abaixo foi escrito pelo Duh Belloto (@duh138).

Postei ele aqui pois gostaria de ter escrito.

Obrigado, Duh.

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- Tá estressado? Fuma maconha. Garanto, funciona.
Olhei bem para o rosto daquele senhor. Não me parecia usuário.
- Não obrigado. Prefiro uma opinião médica.
- Tem médico que receita, você sabia?  Na minha época não era assim não, maconheiro era vagabundo. Hoje em dia é comum, vai por mim, tenho netos da sua idade.

Não tive forças para explicar ao colega que só fumo em ano de copa do mundo (afinal, Paraguai contra Nigéria, só fumando um mesmo). Por mais que eu entendesse que aquele senhor deveria estar ali mais para conversar do que para ter uma consulta emergencial, não conseguia me livrar do sentimento de aversão a coletividade. Mesmo sabendo que o meu eu só faz sentido se inserido num contexto de nós, como raça humana, não conseguia a simpatia necessária para continuar a premissa de um bate papo agradável proposto pelo notável viuvo ao meu lado. Optei por um cigarro.

Mal havia saido da sala de espera do pronto socorro e acendido o cigarro, já ouvi meu nome sendo gritado por um enfermeiro, e a senha no monitor de plasma não deixava dúvidas, era minha vez. Joguei o cigarro na rua e corri em direção ao consultório. Sentei e expliquei o grande drama: não conseguia dormir.

O médico me encarava como se eu fosse um drogado. Não para menos, vinte e quatro horas sem dormir deixariam qualquer Brad Pitt parecendo o Steve Buscemi, mas o fato é que eu não estava ali em busca de drogas. Eu só quero saber se a visão turva é resultado de qualquer coisa que não seja a insônia. Em vão. Após exames de rotina onde nada anormal foi encontrado, ouço do médico:
- Eu vou te receitar este medicamento, é controlado. Mas você deve procurar um especialista.
- Certo, de que tipo? – respondi mais por desencargo de consciência, estava claro que o problema era na cabeça.
- Um clínico geral, sua visão está assim pois você não dorme, e um psiquiatra. Neste pronto socorro não tratamos problemas crônicos, apenas emergências. Durma, descanse e procure tratamento adequado.

Agradeci ao Doutor pelo seu tempo que eu não deveria ter desperdiçado, peguei a receita e fui embora. Nem me dei o trabalho de passar na farmácia, uma vez que certamente conseguiria fechar os olhos sem o medicamento. E a possibilidade de abri-los novamente após algumas horas também seria maior. Assim o fiz.

Nas treze horas que se seguiram, muitos sonhos. Daqueles que não conseguia mais ter de olhos abertos. Daqueles que só a imaginação de alguém cujo poder de congnição não tivesse sido afetado pela realidade. Sim, somente crianças e políticos por aqui sonham sem se preocupar com impostos. Me admira o fato de nunca ter pago imposto por idealismo, ou por sonhar. Por desejar algo mais leve do que o acorda-come-transito-trabalho-come-trabalho-transito-come-dorme. Por entender que a injustiça prevaleça, mas não deva ser eterna enquanto dure. Saber que é possível ser profissional e humano. O tipo de coisa que só a juventude ingenua possui. Tinha sido o tempo, como foi o sonho que não recordei, pois quando realmente despertei, ainda estava cansado.

Acordar de um sono merecido mas mal dormido nunca é o ideal para recarregar energias por stress, vide clube da luta. A questão agora é que por  necessidade da cevada nossa de cada fim de semana, não seria possível me abster do próximo dia de labuta, mesmo que fosse a sexta-feira que seria. Lembrei-me do remédio, e sim, tinha a receita. Tomei um banho e parti para a farmácia.

Adentrei em passos firmes, mas cautelosos. Não podia parecer o junkie que não era. Entreguei a receita a balconista com um sorriso discreto. Ela examinou minuciosamente a receita e concluiu:
- O médico não preencheu o seu endereço.
-E? – perguntei eu, uma vez que o nome do remédio, meu nome e o carimbo do hospital estavam legíveis até para uma letra caracteristica de mécico.
- E que caso eu preencha seu endereço, será considerado rasura, e este tipo de medicamento, por ser controlado, não pode ter a receita rasurada.

Achei que era preguiça de fim de expediente da moça, peguei de volta a receita e decidi ir para uma farmácia concorrente, novamente sem sucess e, pelo mesmo motivo. Resolvi ir a uma grande rede de farmácias, talvez menos burocrática. Ledo engano. Desta vez, já perturbado com a falta de sucesso da empreitada, totalmente lícita diga-se de passagem, solicitei a presença do gerente e disse:

-Veja. Este é um remédio para combater stress, procede?
- Sim, com certeza – disse o gerente.
- Pois bem. Esta é a terceira farmácia que tento comprar e me negam, pelo mesmo motivo. Você concorda que a busca deste remédio contra stress está me causando mais stress?
- Sim senhor, compreendo, mas infelizmente não posso vender sem o médico ter preenchido corretamente.
Achei mais prático não discutir, e perguntei qual a solução, mais por desencargo de culpa do que propriamente pela informação em si, uma vez que se confirmou que eu deveria voltar ao pronto socorro. Já eram dez horas da noite, impossível o mesmo médico estar lá desde as oito da manhã. Mesmo assim, não vi outra solução e para lá rumei.

Pronto-socorro em bairro de classe média pequeno burguesa costuma ser lotado, por mais abusivos que sejam os valores de planos de saúde. Mesmo assim, como bom conhecedor da lei de Gérson e com nível de stress elevado a uma boa potência, optei pelo jeitinho e fui direto a enfermeira chefe. Expliquei todo o caso, o que não bastou. Foi quando ouvi:
-Sinto muito, mesmo averiguando no sistema que realmente o senhor realizou a consulta hoje e a receita procede, o médico não esta mais aqui. Por motivos éticos, nenhum outro médico pode prescrever outra receita identica, o senhor deve passar por outra consulta.
Apelei por bom senso, recebi um sorriso amarelo, que respondi com um olhar vermelho rumando em direção a recepção do pronto-socorro.

Mesmo que minha aparencia demonstrasse a necessidade do medicamento, meus protestos foram em vão. Novamente, retirei a senha, número 78 desta vez,  e fui fumar um cigarro para encurtar o tempo de espera.

Foi dar o primeiro passo para fora da recepção e percebi que estava sem cigarros. Avistei um bar, daqueles bem copo sujo, do outro lado da rua e para lá parti. Chego no caixa e digo para o simpático atendente:
- Quero fumar, tem marlboro?
- Não só marlboro, tenho um do artista bom também. É três para um, coisa fina. Coxo um de amostra grátis, aceita?
Olho no plasma da recepção. A senha chamada é a de número 30.
- É, aceito.

Traguei e pensei: devia ter ouvido a voz da experiência. Ela certamente sabia que, no Brasil, é mais fácil comprar maconha do que remédios controlados.

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Boom dia!

dezembro 17, 2009 · Deixe um comentário

“Amanhecera um domingo alegre no cortiço, um bom dia de abril. Muita luz e pouco calor. As tinas estavam abandonadas; os coradouros despidos. Tabuleiros e tabuleiros de roupa engomada saiam das casinhas, carregados na maior parte pelos filhos das próprias lavadeiras que se mostravam agora quase todas de fato limpo; os casaquinhos brancos avultavam por cima das saias de chita de cor.”

O Cortiço (Capítulo VI – Aluizio de Azevedo, 1890)

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O despertador toca com uma música selecionada previamente com o objetivo tentar abafar os sons das sirenes dos carros de polícia e ambulância e posso dizer que o dia começa e vai até o final dele com o mesmo ritmo desse parágrafo sem pausas sem respiro e sem descanso.

Antes mesmo de me levantar da cama e abrir meus olhos, consigo distinguir perfeitamente o ruído agudo de uma freada de um carro do barulho grave de um motor de ônibus que arranca lotado em direção a um dos quatro cantos da cidade. Eu moro no centro. No centro do caus. No centro de tudo que tem de bom.

E há 5 anos vivendo em um apartamento apertado, consegui desenvolver uma audição apurada que compõe o meu sistema nervoso-e-estressado de sobrevivência em grandes cidades. E é muito estranho dizer que gosto disso tudo. É um prazer meio sadomasoquista. Algo para ser analisado por uma psicanalista.

A esperança em um dia bacana passa bem longe da minha janela, são apenas duas opções: dia chuvoso ou quente demais. E ao abrir as cortinas me deparo com um show de horrores: dezenas de janelas de um outro prédio a menos de quinze metros distância.

Preciso me apressar para ir ao trabalho, para ir ao colégio, para chegar com quinze minutos de antecedência na entrevista de emprego ou na reunião. Preciso me apressar pois pode estar chovendo ou um acidente envolvendo um motoqueiro pode ter parado a avenida principal. Preciso entrar no ritmo. Meu coração já se acostumou a bater no compasso da buzina.

Você deve estar pensando que hoje eu acordei com o pé esquerdo, não é mesmo? Mas você está errada ou errado. Pé esquerdo ou pé direto, na pontinha dos pés, com as mãos, suplicando de joelhos, não importa, é sempre do mesmo jeito. E eu gosto muito disso tudo – ou acho que gosto.

Não posso reclamar, sou um privilegiado por dormir um pouco mais que quatro horas nessa última noite.

Me arrasto até o banheiro e tomo um banho acelerado de cravados 7 minutos e 41 segundos. Todo mundo acha que eu sou um “ecochato” e consciente ambientalmente, preocupado em não gastar água, mas a verdade é que eu estava atrasado. Ando pela casa enquanto escovo os dentes e coloco as minhas roupas. Agora, estou finalmente pronto para sair.

Desço até a padaria que não é a minha preferida, mas é a única que está localizada no caminho que faço para ir ao trabalho (isso economiza tempo). Sempre levo o dinheiro trocado na palma da mão, exatos cinco reais e setenta e cinco centavos (em um dia de padaria cheia isso economiza tempo pra caramba). Como no balcão mesmo, em pé (pra economizar tempo, óbvio).

Mas tudo o que eu gostaria, algo que realmente me deixaria feliz, era que o Josivaldo, funcionário da padaria, me entendesse. Quem sabe assim ele não me olharia com aquela cara de descontentamento e vergonha da próxima vez que eu fizer o pedido de todo dia:

- Josi, um pão na chapa e um energético, por favor.

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Longe de mim querer fazer este pobre relato e compará-lo a obra Realista de Aluízio de Azevedo.  Mas será que a sua rotina não tem um pouco de O Cortiço?

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Malandragem não se aprende. Ou você nasce com ela ou já era.

novembro 26, 2009 · 6 Comentários

Ladrilhos Selaron - Arcos da Lapa RJ

Sou declaradamente um apaixonado pela boemia e, conseqüentemente, fã da figura do Malandro. Sim, Malandro merece respeito e letra maiúscula. Estou falando de figuras idôneas, engenheiros, magistrados, “diplomatis” como Seu Madruga, Mussum, Romário, Agostinho Carrara, Moreira, Bezerra e Dicró, Paulo César Pereio e tantos outros que sabem levar a vida de um jeito mais leve, tranquilo e sem lesar (quase) ninguém.

Rio de Janeiro, Bahia e Minas são ótimos celeiros de Malandro. Dizem até que existem escolas nestas cidades onde é possível tirar brevê para Malandragem.

Malandro vai ao samba, tem calça branca e camisa florida, chapéu, um bom papo na ponta da língua, o que, às vezes, ajuda a impressionar uma nega. Ajuda a sair com as ruivas, a beijar as loiras e as morenas e também a amar as feias. E uma observação: na cartilha de etiqueta do Malandro, ampolas de diurético devem ser servidas na companhia de copos tipo americano – isso ajuda a realçar o sabor da cerveja.

Se me permite, gostaria de contar a história de um rapaz que conheci esses dias: Augusto Neto, aspirante a Malandro e estudante de antropologia na FAAP, 22 anos de praia, um cara que se diz de esquerda e tesoureiro do Centro Acadêmico da sua faculdade. Seu grande feito no C.A. foi ter lutado e parado as aulas por 20 minutos para reivindicar uma cafeteira italiana para os alunos. Ele alegava que isso iria aumentar a concentração dos seus companheiros e companheiras durante as aulas.

Augusto gosta de frequentar um bar bem descolado que fica do outro lado da cidade, bem longe do bairro de onde ele mora. Durante o dia o bar é habitado por pessoas simples, trabalhadores que passam por lá no fim do expediente para tomar um rabo de galo, um birinight (www.birinight.com), uma pinga com mel e curtir um dedo de prosa. De noite aparecem os formadores de opinião, universitários, músicos e até artistas atraídos pela cerveja gelada e barata. (Será que o encontro de formadores de opinião e cerveja gelada atraem baratas?)

Um dia Augusto me contou que o que ele mais gosta no lugar é o tratamento. Gosta daquele sotaque nordestino no atendimento; adorou quando depois de algum tempo começaram a chamá-lo pelo nome – se sentia um rei. Ele dizia que até gostava daquele pano imundo que secava a mesa marcada pela transpiração do copo gelado.

Depois de muita propaganda do lugar, resolvi aceitar o convite do Augusto e tomar umas com ele nesse bar. Realmente o lugar era como ele descreveu. Mas faço questão de enriquecer o relato com alguns adendos: o lugar era – e deve ser até hoje – quente e abafado, sujo, com um leve aroma de fritura, desorganizado, mas muito seguro e incrivelmente confortável.

Com certeza ele não faz parte das indicações da Vejinha. Mas fique tranquilo e sossegada, se você nunca ouviu falar dele, mais cedo ou mais tarde, ouvirá – nem que seja por um blog insignificante como o meu.

Mas onde estávamos? Ah, no bar com nosso Wanna be a Malandro.
Sentamos, pedimos uma ampola que veio acompanhada de um bom assunto e uma porção de amendoins. O papo estava ótimo, mas era impossível não reparar nas pessoas que habitavam o lugar. Ao meu lado: um hippie que depois de vender alguns brincos parou para descansar e tomar um copo de água da torneira. Atrás do Augusto: uma menina – eu acho que era menina – e um cara que tinha a barba igualzinha a do Jack Sparrow. Ele estava até maquiado. Juro, fiquei hipnotizado me perguntando o que leva um cara a se caracterizar daquele jeito. Ele era tipo um anime do Piratas no Caribe. O pior é que o filha da puta deve pegar mais mulher do que eu. Foda.

Como perceberam pelo meu relato, era impossível não perder o foco naquele lugar rico de informações. Mas quando o Augusto se levantou para pegar uma cerveja no balcão – óbvio que lá não tem garçom – prestei atenção em uma coisa: achei estranho o Augusto pagar as cervejas com cartão de crédito internacional. Mais estranho foi cobrar R$ 7,00 por 600 ml de suco de cevada. A noite seguiu, mas eu fiquei com uma pulga atrás da orelha.

Semana passada, passando por lá durante a tarde, resolvi entrar e verificar o movimento do lugar. Pedi um risole, mas não tive coragem de comer. Foi então que reparei que no lugar não havia nenhum cartaz de cerveja com preço, nem valores dos petiscos. Nada. O preço era dado conforme análise do cara que estava atrás do balcão, o vendedor. Ou seja: ele olhava para você e julgava o quanto a sua figura poderia pagar pelo que pediu. E os valores também poderiam mudar dependendo do vendedor que você pegasse, que eram apenas 2 para atender de 5 a 10 pessoas durante o dia, e de 50 a 60 pessoas (mais o Jack Sparrow) durante a noite. Isso explicava porque eles cobravam R$ 2,40 pela cerveja para um taxista, por exemplo, e R$ 7,00 para o meu amigo.

É como diz a canção, “Malandro é Malandro e o Augusto é o que é”.

E para você que ficou curioso ou curiosa eu digo: paguei R$ 2,00 pelo risole e 4,50 pela cerveja. Tire suas próprias conclusões enquanto eu faço coro junto com o Chico para homenagear e invejar os verdadeiros bambas da Malandragem:

“Mas o malandro para valer, não espalha,
Aposentou a navalha, tem mulher e filho e tralha e tal.
Dizem as más línguas que ele até trabalha,
Mora lá longe chacoalha, no trem da central”

(Clique aqui e escute a música)

 

Ladrilhos Selaron - Arcos da Lapa RJ


 

 

 

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“Einmal ist Keinmal”

outubro 8, 2009 · 6 Comentários

“Mas, muito pelo contrário, será que um acontecimento não se torna mais importante e carregado de significação se depende de um número maior de acasos? Só o acaso pode nos parecer uma mensagem. Aquilo que acontece por necessidade, aquilo que é esperado e se repete cotidianamente é coisa muda apenas. Somente o acaso tem voz. Tenta-se ler no acaso como as ciganas lêem no fundo de uma xícara os desenhos deixados pela borra do café.”
A Insustentável Leveza do Ser.

Como planejado, Anni Lauricella leu seu trecho preferido do livro de Milan Kundera. Era o início do ritual que ela criou para viver uma paixão tórrida.

Anni estava cansada de procurar por homens na noite e em bares. Sem paciência para as indicações que suas amigas faziam – quase sempre um amigo galinha do namorado -, até promessa pra santos e orixás ela fez, embarcou em vão na tentativa de encontrar seu gatinho em dois cruzeiros – desses onde ninguém é de ninguém – e até roubou cueca de um vizinho que era modelo fotográfico, enfim, fez o diabo. Com o tempo e o fracasso, acabou desistindo de todas as crenças, mas não deixou de acreditar no amor pra vida toda. Anni queria algo límpido e puro, como nos contos de fada.

Anni Lauricella descobriu uma fenda no templo do destino, um ambiente, segundo ela, repleto de acasos, um lugar onde as pessoas estão mais suscetíveis a se apaixonar. Lá, a grande maioria das pessoas não estariam no seu habitat natural, nem cercadas dos julgamentos de amigos e familiares, não carregariam grandes bagagens sem rodinhas com os pesos dos relacionamento anteriores. Lá, as pessoas até poderiam ter um pouco de medo, mas o desejo de estar nas nuvens seria maior. O aeroporto.

Anni não desejava ter um amor em cada porto, nem tinha fetiche por comissários de bordo elegantemente vestidos. Só desejava o sentimento em sua essência, afinal já tinha 33 anos e até então o destino não havia aprontado nada pra ela. Por isso criou suas próprias armadilhas.

Anni, como toda mulher que se preze, foi ao salão e decidiu pintar as unhas com um esmalte da Chanel “Facetttes d’Or Gold Fiction”. Também decidiu o corte de cabelo pelo qual o rapaz deveria se apaixonar, as lingeries de renda e por aí vai. Segundo ela, estava tudo perfeito. Tudo decidido, inclusive o local onde se apaixonaria: o café em frente ao portão 2 do aeroporto de Guarulhos – sim, aeroporto internacional aumentam as variedades e as possibilidades de encontrar um homem interessante. O cenário era perfeito e lindo, como toda comédia romântica. Só não era real.

E lá estava ela, elegantemente sentada no café a espera do acaso. Resolveu também que não levaria bagagem nem necessaire, queria um amor verdadeiro, uma nova vida, ou traduzindo para o dicionário feminino, roupas novas.

Passagem pra quê? Lauricella era só amor, e como prova disso estava disposta a seguir o destino do seu amado. E assim que o encontrasse compraria uma passagem no mesmo voo. Viajou na maionese.

Para sua alegria, durante toda a manhã o aeroporto ficou fechado. E isso era ótimo para ela, pois aumentava as chances de alguém puxar papo e iniciar o romance. Para ela, aquele era a comprovação de que seu ritual estava certo. Ela já estava excitada com o fator acaso.

O aeroporto reabriu, o movimento diminuiu dentro do café e Anni começou a se desesperar. Ninguém, além da Garçonete do café que lhe ofereceu açúcar, abordou nossa protagonista naquela manhã. E também foi a Garçonete a única a notar o semblante de Anni.

Logo depois do almoço a Garçonete tirou o avental e se sentou do outro lado do balcão, ao lado de Lauricella. A Garçonete perguntou o que estava acontecendo e logo de cara Anni se sentiu a vontade para lhe contar sua história e ritual de quase acasalamento.
A conversa decolou e seguiu em grande velocidade por toda a tarde. A Garçonete escutou e no final deu seu parecer:
- Anni, querida, você é uma mulher fabulosa, sensual, inteligente e pura. De tão perfeita você é ingênua demais. Você queria que o acaso agisse na sua vida, mas criou um modelo perfeito. Decidiu tanto como as coisas deveriam acontecer que não deixou espaço para o acaso agir. Talvez seja o momento de …

Anni, sem prestar muita atenção no que ela dizia, interrompeu:
- Deus do céu! Você viu que horas são?

O dia havia passado e para Anni nada havia acontecido.
A Garçonete estendeu a mão para Anni oferecendo um saquinho de açúcar e desejando-lhe um destino mais doce.
Anni colocou o saquinho de açúcar dentro da bolsa, logo em seguida jogou algumas moedas sobre o balcão e saiu correndo pelos corredores do aeroporto a procura de algum sinal do acaso antes que a fenda se fechasse. Se não fosse pela cor dos seus cabelos loiros, poderíamos dizer que aquela cena fazia parte do filme “Corra, Anni. Corra.”. Ela tentava desesperadamente encontrar um amor, disparava piscadas, tentou esbarrões em todo e qualquer ser humano do sexo oposto que se aproximava.
Depois de ver que não estava fazendo efeito, partiu para o desespero. Se encostou em uma pilastra para retomar o fôlego. E para não perder mais tempo, colocou em prática suas aulas pole dancing. Estava hilária a tentativa de seduzir o acaso. O saguão parou para assistir ao show de horrores da nossa pequena.
Após retomar o fôlego, voltou a correr. E logo nos primeiros passos tropeçou. Misturaram-se sobre o chão de mármore todos os pertences que estavam na sua bolsa, inclusive seu orgulho e esperança no acaso. Seu ritual acabara de chegar ao fim. Um triste fim.

Ao levantar a cabeça, a primeira coisa que Anni viu foi o saquinho de açúcar. Tomou aquilo como um real sinal do acaso. Caminhou calmamente até o café, percorreu o caminho de volta e contou a cada passo os erros que cometeu. Ao chegar ao balcão ergueu sua mão para chamar a Garçonete, e quando ela chegou Anni lhe roubou um beijo.

açucar

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Popopoeta

setembro 25, 2009 · 4 Comentários

Foto de Thiago Lopes

Página 17, Arte&Cultura, coluna da direita de um jornalzinho qualquer do interior. Era lá que Tenório habitava. Mais precisamente ao lado da impressora – fotocopiadora, como ele mesmo dizia –, perto banheiro. Alguns colegas comentavam que o cheiro de urina que impregnava aquele local servia de inspiração para os poemas do Tenório. Diziam que as folhas vinham pingadas; era uma piada interna da redação. Fato é que Tenório gostava daquele lugar. Era só pegar o papel na fotocopiadora e caminhar até a pia do banheiro, lugar onde há mais de 18 anos ele lia em voz alta suas poesias.

A redação parava. Todos caminhavam até a porta do banheiro e se espremiam em silêncio para ouvir as belas frases que ecoavam do banheiro cheias de lirismo e cheiro de xixi. Você consegue imaginar ou sentir a cena?

*É estranho como o desejo se parece tanto com um vício.

Desde a forma de como ele afeta todos os seus sentidos de uma maneira diferente, o desejo necessita de uma certa dose diária e chega a levar a loucura quando o tempo e a distância o forçam a abstinência.

Penso que tanto o vicio e o desejo surgem das sutilezas. Pode ser um leve desejo de sentir aquele nuance do cheiro entre o pescoço e as costas, como também desejar fazer na ponta dos dedos o contorno daquele corpo. Desejo de fazer o tempo parar a cada vez que cruzar com um olhar.

O desejo que me força a assumir.

Eu viciei nos meus desejos.

Tenório tinha a admiração dos donos do jornal e o respeito de toda a cidade. O sucesso era tanto que na barbearia, na padaria e também no açougue ele era sempre recebido em verso e prosa com algum trecho de uma de suas poesias.

*”Ainda é verdade o que se ama na mentira.”

Escrevia tão bem que tinha o poder de prender as pessoas na leitura e na cidade. Isso mesmo, a poesia era a desculpa dos jovens para não tentar a vida na cidade grande. Sua poesia era o motivo pelo qual os mais velhos se sentiam satisfeitos com a vida naquela rotina. E o que se ouvida desde criança era “eu quero ser que nem o Tenório quando eu crescer”.

Tenório era patrimônio da cidade, suas criações corriam involuntariamente nas veias das pessoas até chegar ao coração.
“Seu maldito, descarado! Como você tem a coragem de dizer que essa poesia é suas, isso aí é do Tenório”; e assim se foi mais um namoro. Reza a lenda que certa vez o padre chegou a citar um dos versos do nosso ilustre cidadão dizendo que o trecho se encontrava no livro de Salmos. Que pecado!

Dizem que os cachorros demarcam seu território mijando em postes, paredes e pneus. Tenório deixou sua marca na redação do jornal semanário e naquela pacata cidade por meio da poesia.

Mas para Tenório essa foi uma constatação triste: saber que seus versos impediam as pessoas de sair, de mudar ares, de se aventurar e conhecer novos mundos, outras realidades. Todos estavam felizes e satisfeitos em abrir diariamente o jornal e encontrar poesias de amor, de amigo, às vezes concreta, social e comemorativa, poucas vezes política, e quase nunca formada por dois quartetos e dois tercetos composto por versos decassílabos.

Era preciso tomar uma atitude. E Tenório resolveu por fim as suas rimas, mas não com um ponto final. E sim com milhares de grãos de areia. Tenório partiu sem avisar, sem bilhete de volta nem recado no papel de pão. Destino: um deserto qualquer.

Foi essa a solução que ele arrumou para fazer seus leitores pensarem na vida. Ele foi e levou apenas um guarda-chuva. Nada de papel, nem comida. Se quer levou roupas limpas, caixa de primeiros socorros, um GPS ou uma bússola. Apenas a roupa do corpo, um guarda-chuva e a esperança de que tempos melhores viriam.

Quatro anos se passaram e nenhuma notícia do poeta.

A vida havia tomado novos rumos na cidade. Os ventos de mudança sopraram por lá e chegaram até o deserto fazendo escorrer água do céu. Era o sinal que Tenório tanto esperava para abrir seu guarda-chuva e voltar a sua terra natal.

As pessoas haviam mudado. Algumas saíram, outras chegaram. Havia televisão, carros, novas ocupações e até computador. Mas tudo nessa vida tem seu preço. E por tal milagre a cidade pagou com perda do poeta. E o poeta também pagou. Tenório agora estava gago.
É assim, de um jeito ou de outro para se tornar mártir é necessário perder alguma coisa. Ele perdeu a fala e o respeito.

Tenório foi recebido com toda pompa, de carro de bombeiro a chave da cidade. Todos estavam no coreto aguardando as palavras do poeta após 4 anos de clausura e auto-exílio. 1460 dias sem poesias. Sem aquelas poesias inefáveis inebriadas de xixi.

Milhares de cidadãos estavam na praça, e o silêncio era maior que o das reuniões em torno da porta do banheiro da redação do jornal. Dava até pra sentir o cheiro da urina dos cachorros e mendigos que habitavam a praça antes da multidão. Um clima perfeito.

Tenório recitou e gaguejou. Estrondosas gargalhadas ecoaram do coreto. O poeta insistiu e gaguejou. Aos prantos seguia na inútil tentativa de mostrar o que havia aprendido durante os anos no deserto. Foi inútil.

A poesia não habita mais aquela cidade.
E Tenório virou chacota no Youtube e inspiração para uma música. E sua mensagem, seus versos e sua arte foram silenciadas pelos risos idiotas da multidão.

Fim.

* As poesias são do meu grande amigo Daniel “Ronaldão” – www.contonumconto.wordpress.com .

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Apartamento 86

setembro 9, 2009 · 8 Comentários

Ilustração de Marcelo Mariano "Jesus"

Ilustração de Marcelo Mariano "Jesus"

O “sábio” Carlos Camargo, apresentador de um programa televisivo popular do interior do nosso Brasil, costumava dizer que existem sempre três versões para cada fato policial: a do acusado, a da vítima e a da lei.

A história que vou contar agora, até onde eu sei, não chega a ser um caso de polícia. Mas tem suas versões.

O programa do Fantástico não havia terminado, ainda era noite de mais um domingo de Agosto. O clima estava agradável e propício para se aproveitar ao lado do ser amado, quem sabe até dividir um prato típico de comida italiana. Mas, infelizmente, como esta história não se passa em Hollywood não teremos um final feliz.

Tranquei a porta do meu apartamento e, enquanto esperava o elevador, assisti a uma peça da vida como ela é.

O capacho de palha que ficava ao pé da porta do meu vizinho dizia: “Aqui mora uma família feliz”. Capacho mentiroso.

Poucos segundos depois de ler isso, o meu vizinho saiu de lá furioso. Cuspindo fogo em direção à escada. Voltou, pegou uma latinha de Skol dentre as 18 que estavam naquele pacote mais econômico e bradou jogando-a no chão: acabou, não quero mais viver com você!
E foi descendo pelas escadas que ele saiu de cena.

Tssssss. A latinha girava e anunciava o início do segundo ato deixando vazar cerveja pelo corredor da residência.

Do escuro de um apartamento cheio de caixas de papelão, objetos mal arrumados, saiu uma loirinha com um pano de chão. A cena era triste e chocante. A porta continuava aberta enquanto ela tentava secar o piso, mas não percebia que suas lágrimas molhavam o que ela acabara de secar.

Meu elevador chegou. Eu precisava deixar aquela triste fato sem saber o real motivo da briga. E me desculpem, eu estava muito curioso. E por ter visto aquilo tudo, além de ser vizinho, eu já fazia parte da história e da vida do casal. Já era cúmplice daquela briga.
E se ele voltasse e desse oito facadas na garota e depois se suicidasse com uma tesourada no próprio coração? E se ela tomasse 30g de estriquinina ou chumbinho? E se ela saísse de carro atrás do rapaz e em um cruzamento colidisse com uma van da 3º Idade do SESC que acabara de retornar de uma viagem a Ubatuba? Fiquei preocupado, curioso e me senti no direito de pensar em qualquer coisa.

Logo depois de descer do elevador e chegar a calçada do meu prédio, minha amiga que estava comigo em silêncio e assistindo a tudo aquilo sem pagar ingresso interrompeu meu pensamento com a sua versão da história:

-    Ela mereceu. Com certeza aquela menina fez alguma coisa para o rapaz. Você viu aquela casa? Que bagunça, roupas pelo chão, lixo, poeira. Como uma mulher se presta a uma situação dessas? Sem falar na mão dela. Você viu a mão dela? As unhas mal feitas, esmalte descascado, o cabelo sujo.
Sem dúvida ela mereceu. Esse tipo de mulher normalmente se envolve com outros homens, sabe? Aí pára de cuidar da casa, de cuidar de si, de cuidar do seu homem.
Não sei se você percebeu, mas eu vi umas cartas de baralho lá no fundo, em cima do sofá. Ela com certeza deve estar envolvida com tarô e esses outros rituais espirituais. E você sabe como são esses ciganos, né? Coitada das crianças que moram lá. De longe esse não é um ambiente familiar. É isso o que acontece com quem toma remédio demais, fica dependente. Depois se estraga e estraga a vida dos outros.

Minha amiga vomitou a versão dela até o taxi chegar. Eu fiquei pensando onde ela havia arrumado tanta informação para chegar àquela versão da história. Afinal, foram poucas as coisas que eu consegui ler da cena real. Eu nunca havia visto meus vizinhos antes, muito menos o baralho que minha amiga disse que viu. E também não sabia que meus vizinhos eram ciganos ligados ao espiritismo. E quem foi que disse que naquela casa haviam crianças filhas de uma mãe hipocondríaca?
Seria o instinto de fêmea ciumenta e protetora aflorando e falando mais alto ao ver um macho ir embora? Seria o sexto sentido feminino? Seria a briga que o pai dela teve com madrasta na sexta-feira sendo refletida naquela cena? Não sei. Mas essa era a versão dela sobre os fatos. Também me senti no direito e desafiado a pensar em um motivo para aquela história:

-    Pra mim eles eram amantes. E aquele apartamento era o lugar onde eles se encontravam para consumar suas orgias.
Mas como explicar o capacho mentiroso com os dizeres “aqui mora uma família feliz.”? Na minha opinião era pura fachada.
Enfim, vamos ao motivo da briga. Por mais constrangedor que o motivo  pareça, todo casal está sujeito a passar por isso: ele havia brochado. Sim, o pênis dele não se encheu de sangue suficientemente para ficar ereto. E o que deveria ser tratado com naturalidade, não foi.
Logo após falharem, ele se vestiu rapidamente e foi para sala. Ela fez o mesmo. Ele acendeu um cigarro e ela o abraçou. E o meu vizinho começou a  se queixar dizendo que ela estava sufocando ele. Que estavam caindo na rotina. Que não era mais como antes. E que desse jeito ele não se sentia encorajado a largar a esposa para viver com ela – a minha vizinha amante.
E disse mais. Disse que a pressão que ela fazia estava atrapalhando o desempenho dele no trabalho. E, por isso, ele não tinha coragem de mudar radicalmente sua vida.

Sem pensar, ela gritou: Frouxo!

O grito dela se referia a falta de coragem dele em largar a esposa. Pois ela – a vizinha amante – esperava por isso há mais de seis anos. Porém ele entendeu que ela estava ofendendo o seu pinto, e não a sua falta de atitude. Ele pensou com a cabeça de baixo e pois tudo a perder.
Apontou uma metralhadora de ofensas para sua amante e disparou. Sem dó nem piedade.
Quando terminou seu discurso grosseiro e agressivo o cigarro já havia virado uma bituca entre os seus dedos, pondo fim também a brasa que ardia entre o casal. Depois disso, ela também havia brochado. Foi então que ele disse o que disse, jogou a latinha no chão e saiu do apartamento sem saber o real motivo dela tê-lo chamado de frouxo e, consequentemente, da briga.

Minha amiga me questionou sobre como eu sabia de tudo aquilo, dos problemas sexuais deles e das falas entre os dois.
Eu disse que toda briga de casal é assim. São como os livros e filmes antigos.

Minha amiga aceitou. Entramos no taxi e contamos ao motorista, um de cada vez, nossas versões sobre o ocorrido.
A corrida foi curta, custou apenas dezoito reais e sessenta centavos. E por ter sido rápida demais ele não teve chance de opinar, apenas escutou.

Com isso, já somos quatro pessoas que não sabem o motivo real pelo qual o casal brigou: minha amiga, eu, o taxista e você – meu caro leitor.
Mas vou deixar você pensar, analisar, criar e opinar sobre o que levou o casal de moradores do apartamento 86 a brigarem naquela noite de domingo. Fique a vontade para deixar sua versão nos comentários deste blog.

Por que dessa história eu só tenho uma certeza: eu não sei nada sobre os meus vizinhos.

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DD, o pansexual.

agosto 21, 2009 · 4 Comentários

Junte uma porção de talheres sujos, pratos de vidro com mais comida do que água e sabão, uma ou duas latinhas de cerveja que depois de utilizadas servirão de cinzeiro, uma tupperwere com macarrão sem molho que está há mais de três dias na geladeira, uma frigideira pequena que foi utilizada para fritar hambúrgueres de soja e uma panela de feijão. Misture tudo isso em uma pia pequena deixando curtir por mais ou menos uma semana.

Pronto. Você acabou de montar a receita perfeita para seduzir Djalma Teixeira, 32 anos, gaúcho, viúvo e pai de um filho com Síndrome de Down, um empresário respeitado no ramo de importação e exportação na cidade de Cuiabá. Mas que, infelizmente, perdera a guarda do filho um ano e três meses após a morte de sua esposa, 23 anos mais velha que Teixeira.

Perdeu a esposa para a infecção alimentar e o filho para o Juizado de Menores. A causa de ambos os fatos foi a mesma: as condições insalubres da cozinha de DD (leia-se Dedê: nosso querido Djalma Teixeira).

O rapaz tinha um verdadeiro tesão em lavar louça.Para você ter uma idéia, ele proibiu sua esposa de encostar na pia. Ficava furioso ao vê-la molhando qualquer peça do conjunto pratos, panelas, copos e talheres que ganhara de sua mãe como presente de casamento. No começo, a esposa de Djalma gostava, achava graça e até se vangloriava para as amigas dizendo que DD a tratava-a como uma rainha – coitada.

Com o passar de alguns meses de casamento a esposa de Djalma percebeu que o ciúmes doentio que ele sentia não era dela, mas da pia ou da louça que lá repousava.

Para ele era afrodisíaco ver montes e arranha-céus de louça suja, as vezes, sendo sobrevoada por alguns mosquitos.

DD chegou até a criar um ritual, uma dança do acasalamento para se relacionar com aqueles objetos. Primeiro – como dito no parágrafo inicial – Teixeira deixava a louça curtindo por uma semana. No domingo, acordava ás 11h da manhã e caminhava até a padaria do bairro onde comprava religiosamente um frango assado por R$ 6,69. Caminhava calmamente até sua casa e se sentava na área de serviço, ao sol, para debulhar o galináceo com as pontas dos dedos. Os termômetros marcavam 37ºC, e DD não se importava nem um pouco em estar ali se alimentando. Fazia parte do ritual, ele queria entrar no clima. Após terminar a refeição se deitava no chão e, ainda ao sol, só se levantava às 3h da tarde. Quando seu corpo estava quente, queimando de paixão. Caminhava com uma angustia ardente, sedento de vontade pela sua pia.

E era lá que ele tinha prazer. Gozo quase real. Tudo parecia fálico: uma esponja de aço, a boca de um copo de cristal, a ponta da alça da tampa da panela, o cabo da faca de prata, a espuma e o detergente que se misturavam com seu suor e a gordura do frango que acabara de comer. Os movimentos eram ritmados para ficar ainda mais gostoso. Só faltava gemer.

DD gostava de lavar a louça de olhos fechados, queria potencializar a experiência sinestésica do contato do seu corpo quente com a água fria, causando arrepios, calafrios, torpor e alucinações em uma sessão de 30 minutos de puro prazer.

Depois de terminar, já exausto, mas satisfeito, Djalma Teixeira arrumava a cozinha, tomava banho e se juntava a milhares de outros homens imperfeitos para assistir ao futebol. Seu time preferido: Botafogo.

Lava loucas

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Ao meu terapeuta

novembro 27, 2008 · 9 Comentários

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Deus que me perdoe, mas eu tenho muita curiosidade em saber qual o sabor daquela maçã que Adão comeu. Como deve ser viver na Antártida? E a sensação de gerar um filho por nove meses? Ouvir meu nome entoado pela Torcida Jovem do Flamengo no Maracanã lotado. E você, quais são os seus desejos?

No final de semana passado fui atrás de um desejo de infância: surfar. Calma, ainda estou aprendendo. Mas o meu surf ainda não é digno de uma taboa de passar roupa.

Para realizar essa prática de lazer eu precisei ir à praia – e como isso ficou difícil depois daquele episódio fatídico no Jardim do Éden. Lembram-se que Deus nos castigou com a mais-valia, os Emos, BBB8, menstruação e tantas outras pestes que enchem o mundo de pecado?

Enfim, estava eu no elevador a caminho da primeira aula. Quando me dei conta de que vestia camiseta, shorts, óculos e chinelo. Meu amigo só de sunga. Mas como assim? Ele vai andar na rua só com essa folhinha de parreira? Que pouca vergonha!

Tomei coragem e no segundo dia fui só de shorts. Nem chinelo eu levei.

Resolvi caminhar. Sexta-feira de tarde, solzinho, brisa, devaneios sobre a vida, estava me sentindo mais perto da natureza, do criador, quando de repente fui tomado por um intenso sentimento de culpa: Virgem Santa, eu não estava trabalhando! Poderia aproveitar aquele tempo para ler um livro, ajudar crianças pobres da África, criar um novo projeto que renderia milhares de reais, aprender uma língua nova, a puta que pariu. Mas não, eu não estava fazendo nada. Estava apenas me divertindo.

Talvez eu não me sinta a vontade no Paraíso por viver em uma rotina infernal. Talvez porque o fantasma do riso da Idade Média ainda me persegue. Sinceramente eu não sei. Mas eu ainda me sinto mal em curtir a vida. Em experimentar. Fico me questionando sobre a relação da culpa-prazer. E vice-versa. Será que Deus está nos sacaneando? Às vezes acho que sou o protagonista do “O Processo”(Kafka).

Longe mim fazer apologia ao hedonismo. Eu só quero ter direito ao prazer sem culpa.

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Aos corajosos.

novembro 17, 2008 · 18 Comentários

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Hoje, finalmente, fui a um churrasco no apartamento do Tiquinho. Por isso, me desculpem por qualquer besteira a que eu venha escrever, ainda estou bêbedo.

Devo confessar que esta foi uma noite importante na minha vida. Não apenas pelas reflexões e pelo texto, mas pelo Ticiano, vulgo Tiquinho. Venho investindo nessa amizade há anos, sabe? No futebol, sempre ergo a cabeça pra ver se ele está desmarcado e quem sabe proporcionar aquele passe primoroso. Na balada, sempre que possível, eu pagava a feinha. Isso deixava o Ticiano com a gata mais bonita e, consequentemente, feliz. Sem falar que quando o cachorro dele morreu – aqueles cachorros feios de corrida, parecido com o Ajudante de Papai Noel, sabe? – eu fui o único a ligar pra prestar meus sentimentos. O cara realmente ficou mal por causa do bicho.

Mais engraçado que esse cachorro, acho a nossa eterna convivência com o medo. Nos relacionamos com ele diariamente, mas não percebemos. Temos medo de viver, medo de agulha, do pop-up da internet, de atravessar a rua, de comer algo estragado, de se apaixonar, de ficar sozinho no final do filme, medo da morte, de ser despedido, de andar de avião, de ser assaltado, medo de palhaço, de Deus e do Diabo.

El miedo es una raya que separa el mundo
El miedo es una casa donde nadie va
El miedo es como un lazo que se apierta en nudo
El miedo es una fuerza que me impide andar

Composição: Pedro Guerra/Lenine/Robney Assis

Como vocês podem perceber não sou apenas eu quem anda bebendo demais, outras pessoas também sentem medo. Quem sabe até você.

O Ticiano é aquele tipo de cara leal, mas tem medo de fazer amizade. Demorou pro cara confiar em mim. Mas um dia ele chegou e disse:

- Vai ter uma festinha em casa na quarta, vê se aparece, beleza?

- Pô, Ticiano, que honra. Combinadíssimo!

- Você precisa parar com essa mania de me chamar de Ticiano. É Tiquinho, porra!

Agora sim éramos amigos. Eu iria a casa dele e ainda poderia chamá-lo de Tiquinho.

Ele morava em um bairro nobre de São Paulo, e mesmo eu não morando no mesmo bairro que ele, éramos quase vizinhos. Coisas de cidade grande onde pobres e nobres dividem o mesmo CEP.

No caminho eu senti um pouco de medo. Já era noite e três indivíduos caminhavam na minha direção. Aí pensei: “fodeu, vou ser assaltado por esses vagabundos”. Preconceito puro. Os caras trabalhavam mais do que eu, eram pedreiros e estavam tranquilamente voltando de mais um dia duro de labuta.

Segui andando e algumas quadras à frente cruzei com uma família. A mãe, ao olhar pra trás e me ver, num gesto bruto e assustado pegou as crianças pela mão. Para surpresa dela nada aconteceu. Eu segui andando e pensando nessa nossa constante convivência com o medo. Hoje, não podemos nem mais sair de casa, caminhar pelo bairro, ir à igreja e ao restaurante sem se preocupar em ser assaltado. Onde vamos guardar o celular, o dinheiro, o computador, “tem lugar pra estacionar o carro”? Mas fiquei curioso mesmo com o que a mulher pensou ao me ver. Sequestrador? Estuprador? Político? Líder religioso? Gay? Doente? Pobre? Corinthiano? Todas as anteriores?

Eu tenho um amigo que tem medo de dragão de Komodo mesmo morando no Brasil. Vai entender. (risos)

Eu estava quase chegando quando vi uns corajosos de pijama. Isso mesmo, estavam de pijamas e acompanhados pelos seus respectivos cachorros. Que destemidos, não? Passear pelo bairro e correr o risco de ser atropelado por um ônibus desgovernado ou sei lá o quê?

Será que cachorro também sente medo? E da carrocinha? De pulga e carrapato? Será que o cão tem medo de ir pro inferno? Eu tive um cachorro que tinha medo do próprio reflexo no espelho.

Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo(…). (Salmo 23.4)

Ufa, cheguei! Tava com receio de não encontrar o lugar, preocupado em não me perder, com medo de me atrasar.

Ao chegar à portaria escura e espelhada, um mecanismo automático de segurança acendeu uma luz fortíssima na minha cara. Parecia até aqueles interrogatórios de filmes de guerra.

- Pois não?

- Opa, vim num chur …

- Seu nome?

- Então, é um churrasco na casa do Tiquinho.

- Seu nome, rapaz?

- Cardoso.

- Cardoso de quê?

- Cardoso da Silva.

- RG?

Passei os números do meu documento e as três portas até chegar ao hall do prédio.

Dúvida: pra quê separar os elevadores em de serviço e social? Será que a madame tem medo de ser confundida com os empregados?

Subi pelo social, mas me senti mal com todo esse medo durante o caminho. E, principalmente, por perceber que de nada adiantou investir na amizade e ganhar a confiança do Tiquinho. O porteiro dele tinha medo de mim.

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Obs.: O cara que escreveu essa história tem muito medo de expor suas idéias e se passar por maluco. Por isso, antes de postar qualquer coisa ele sempre pede a opinião de uns amigos mais sinceros.

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Aguarde, vou transferi-lo para o setor responsável.

novembro 4, 2008 · 8 Comentários

casaisinteligentesenriquece

(A idéia desse texto é do Gui Madsea, eu apenas apertei as teclas. Valeu Gui!)

Waldir é aquele tipo de cara que adora um benefício, uma vantagem. Mas não chega a ser um “Gerson da vida”. Tudo começou quando ele adquiriu a namorada. Ficou surpreso quando percebeu que iria levar gratuitamente o Combo Família: sogro-ciumento + sogra-materialista + irmão-mala e muito mais.

Os 3 primeiros meses são grátis, um teste. E assim que ele disse que estava gostando do serviço, que iria renovar o contrato, apareceram novas ofertas que ele acabou por adquirir:

Combo 1: turma nostálgica do colégio + a-mi-gas de baladas

Combo 2: colegas de trabalho + galera da academia

Combo 3: ex-namorados + primos folgados com ou sem parentesco sanguíneos

E claro, ao final dos 3 meses começaram a chegar as cobranças do Combo Família. Mas o serviço vai bem, Waldir está animado com aquela novidade toda. E o fator decisivo: os comentários dos amigos que já adquiriram o serviço e dizem que estão maravilhados com filmes aos domingos, seriados de sábado de noite, programas culinários e documentários sobre como dormir de conchinha faz bem a coluna.

Waldir não se importava com tudo isso, não era esse o problema. Afinal, o mundo é assim desde que Adão deu sua assinatura e abriu mão da sua costela.

Na verdade, o que complicava a vida dele são esses costumes contemporâneos da sociedade moderna e tecnológica.

Com 6 meses de namoro resolveram que ficaria mais barato mudar os telefones celulares para a mesma operadora. Para surpreender e agradar sua gata, Waldir a colocou como dependente do clube. Ela, grata pela gentileza, pagava a conta da TV a cabo da casa dele. Ela sugeriu comprarem um carro juntos. E para tanto, nada melhor que uma conta conjunta em um banco americano que acabara de se associar a um grupo francês. 3 anos de namoro merecem uma viagem comemorativa, não é mesmo? Pagaram juntos, mas no cartão dele.

Como vocês podem perceber, laços amorosos não faltavam. Eles faziam tudo juntos, do cadastro na farmácia ao dízimo da igreja.

O contrato matrimonial ia bem, Waldir feliz e ela também. Era cômodo: sempre que ele fazia alguma queixa no Serviço de Atendimento ao Consumidor ela respondia lhe oferecendo um novo Combo como solução para reavivar o relacionamento.

O coitado ficou farto, porém era refém do comodismo dela e da papelada toda. Queria por um fim naquilo, mas não tinha forças.

E se você alguma vez na vida já ligou para um zero oitocentos na vã tentativa de cancelar um serviço sabe por que nosso Waldir continua namorando. Maldita burocracia!

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(Pequenas Prosas – Por Gui Madsea)

- Pois é Raposo… Ela tem bafo, peida na cama, faz o feijão sem gosto e mancha todas as minhas roupas! Sem falar que come de boca aberta e cospe no chão. Coisa verde!
- Mas Waldir, por que não dá um basta nesse relacionamento?
- Porra, Raposo… O Plano Tim Família é só 50 conto por mês e mais um celular novinho pra gente conversar em tempo ilimitado!
- Uia! E ainda por cima toca mp3.

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