“Amanhecera um domingo alegre no cortiço, um bom dia de abril. Muita luz e pouco calor. As tinas estavam abandonadas; os coradouros despidos. Tabuleiros e tabuleiros de roupa engomada saiam das casinhas, carregados na maior parte pelos filhos das próprias lavadeiras que se mostravam agora quase todas de fato limpo; os casaquinhos brancos avultavam por cima das saias de chita de cor.”
O Cortiço (Capítulo VI – Aluizio de Azevedo, 1890)
>>><<<
O despertador toca com uma música selecionada previamente com o objetivo tentar abafar os sons das sirenes dos carros de polícia e ambulância e posso dizer que o dia começa e vai até o final dele com o mesmo ritmo desse parágrafo sem pausas sem respiro e sem descanso.
Antes mesmo de me levantar da cama e abrir meus olhos, consigo distinguir perfeitamente o ruído agudo de uma freada de um carro do barulho grave de um motor de ônibus que arranca lotado em direção a um dos quatro cantos da cidade. Eu moro no centro. No centro do caus. No centro de tudo que tem de bom.
E há 5 anos vivendo em um apartamento apertado, consegui desenvolver uma audição apurada que compõe o meu sistema nervoso-e-estressado de sobrevivência em grandes cidades. E é muito estranho dizer que gosto disso tudo. É um prazer meio sadomasoquista. Algo para ser analisado por uma psicanalista.
A esperança em um dia bacana passa bem longe da minha janela, são apenas duas opções: dia chuvoso ou quente demais. E ao abrir as cortinas me deparo com um show de horrores: dezenas de janelas de um outro prédio a menos de quinze metros distância.
Preciso me apressar para ir ao trabalho, para ir ao colégio, para chegar com quinze minutos de antecedência na entrevista de emprego ou na reunião. Preciso me apressar pois pode estar chovendo ou um acidente envolvendo um motoqueiro pode ter parado a avenida principal. Preciso entrar no ritmo. Meu coração já se acostumou a bater no compasso da buzina.
Você deve estar pensando que hoje eu acordei com o pé esquerdo, não é mesmo? Mas você está errada ou errado. Pé esquerdo ou pé direto, na pontinha dos pés, com as mãos, suplicando de joelhos, não importa, é sempre do mesmo jeito. E eu gosto muito disso tudo – ou acho que gosto.
Não posso reclamar, sou um privilegiado por dormir um pouco mais que quatro horas nessa última noite.
Me arrasto até o banheiro e tomo um banho acelerado de cravados 7 minutos e 41 segundos. Todo mundo acha que eu sou um “ecochato” e consciente ambientalmente, preocupado em não gastar água, mas a verdade é que eu estava atrasado. Ando pela casa enquanto escovo os dentes e coloco as minhas roupas. Agora, estou finalmente pronto para sair.
Desço até a padaria que não é a minha preferida, mas é a única que está localizada no caminho que faço para ir ao trabalho (isso economiza tempo). Sempre levo o dinheiro trocado na palma da mão, exatos cinco reais e setenta e cinco centavos (em um dia de padaria cheia isso economiza tempo pra caramba). Como no balcão mesmo, em pé (pra economizar tempo, óbvio).
Mas tudo o que eu gostaria, algo que realmente me deixaria feliz, era que o Josivaldo, funcionário da padaria, me entendesse. Quem sabe assim ele não me olharia com aquela cara de descontentamento e vergonha da próxima vez que eu fizer o pedido de todo dia:
- Josi, um pão na chapa e um energético, por favor.
>>><<<
Longe de mim querer fazer este pobre relato e compará-lo a obra Realista de Aluízio de Azevedo. Mas será que a sua rotina não tem um pouco de O Cortiço?












