“Mas, muito pelo contrário, será que um acontecimento não se torna mais importante e carregado de significação se depende de um número maior de acasos? Só o acaso pode nos parecer uma mensagem. Aquilo que acontece por necessidade, aquilo que é esperado e se repete cotidianamente é coisa muda apenas. Somente o acaso tem voz. Tenta-se ler no acaso como as ciganas lêem no fundo de uma xícara os desenhos deixados pela borra do café.”
A Insustentável Leveza do Ser.
Como planejado, Anni Lauricella leu seu trecho preferido do livro de Milan Kundera. Era o início do ritual que ela criou para viver uma paixão tórrida.
Anni estava cansada de procurar por homens na noite e em bares. Sem paciência para as indicações que suas amigas faziam – quase sempre um amigo galinha do namorado -, até promessa pra santos e orixás ela fez, embarcou em vão na tentativa de encontrar seu gatinho em dois cruzeiros – desses onde ninguém é de ninguém – e até roubou cueca de um vizinho que era modelo fotográfico, enfim, fez o diabo. Com o tempo e o fracasso, acabou desistindo de todas as crenças, mas não deixou de acreditar no amor pra vida toda. Anni queria algo límpido e puro, como nos contos de fada.
Anni Lauricella descobriu uma fenda no templo do destino, um ambiente, segundo ela, repleto de acasos, um lugar onde as pessoas estão mais suscetíveis a se apaixonar. Lá, a grande maioria das pessoas não estariam no seu habitat natural, nem cercadas dos julgamentos de amigos e familiares, não carregariam grandes bagagens sem rodinhas com os pesos dos relacionamento anteriores. Lá, as pessoas até poderiam ter um pouco de medo, mas o desejo de estar nas nuvens seria maior. O aeroporto.
Anni não desejava ter um amor em cada porto, nem tinha fetiche por comissários de bordo elegantemente vestidos. Só desejava o sentimento em sua essência, afinal já tinha 33 anos e até então o destino não havia aprontado nada pra ela. Por isso criou suas próprias armadilhas.
Anni, como toda mulher que se preze, foi ao salão e decidiu pintar as unhas com um esmalte da Chanel “Facetttes d’Or Gold Fiction”. Também decidiu o corte de cabelo pelo qual o rapaz deveria se apaixonar, as lingeries de renda e por aí vai. Segundo ela, estava tudo perfeito. Tudo decidido, inclusive o local onde se apaixonaria: o café em frente ao portão 2 do aeroporto de Guarulhos – sim, aeroporto internacional aumentam as variedades e as possibilidades de encontrar um homem interessante. O cenário era perfeito e lindo, como toda comédia romântica. Só não era real.
E lá estava ela, elegantemente sentada no café a espera do acaso. Resolveu também que não levaria bagagem nem necessaire, queria um amor verdadeiro, uma nova vida, ou traduzindo para o dicionário feminino, roupas novas.
Passagem pra quê? Lauricella era só amor, e como prova disso estava disposta a seguir o destino do seu amado. E assim que o encontrasse compraria uma passagem no mesmo voo. Viajou na maionese.
Para sua alegria, durante toda a manhã o aeroporto ficou fechado. E isso era ótimo para ela, pois aumentava as chances de alguém puxar papo e iniciar o romance. Para ela, aquele era a comprovação de que seu ritual estava certo. Ela já estava excitada com o fator acaso.
O aeroporto reabriu, o movimento diminuiu dentro do café e Anni começou a se desesperar. Ninguém, além da Garçonete do café que lhe ofereceu açúcar, abordou nossa protagonista naquela manhã. E também foi a Garçonete a única a notar o semblante de Anni.
Logo depois do almoço a Garçonete tirou o avental e se sentou do outro lado do balcão, ao lado de Lauricella. A Garçonete perguntou o que estava acontecendo e logo de cara Anni se sentiu a vontade para lhe contar sua história e ritual de quase acasalamento.
A conversa decolou e seguiu em grande velocidade por toda a tarde. A Garçonete escutou e no final deu seu parecer:
- Anni, querida, você é uma mulher fabulosa, sensual, inteligente e pura. De tão perfeita você é ingênua demais. Você queria que o acaso agisse na sua vida, mas criou um modelo perfeito. Decidiu tanto como as coisas deveriam acontecer que não deixou espaço para o acaso agir. Talvez seja o momento de …
Anni, sem prestar muita atenção no que ela dizia, interrompeu:
- Deus do céu! Você viu que horas são?
O dia havia passado e para Anni nada havia acontecido.
A Garçonete estendeu a mão para Anni oferecendo um saquinho de açúcar e desejando-lhe um destino mais doce.
Anni colocou o saquinho de açúcar dentro da bolsa, logo em seguida jogou algumas moedas sobre o balcão e saiu correndo pelos corredores do aeroporto a procura de algum sinal do acaso antes que a fenda se fechasse. Se não fosse pela cor dos seus cabelos loiros, poderíamos dizer que aquela cena fazia parte do filme “Corra, Anni. Corra.”. Ela tentava desesperadamente encontrar um amor, disparava piscadas, tentou esbarrões em todo e qualquer ser humano do sexo oposto que se aproximava.
Depois de ver que não estava fazendo efeito, partiu para o desespero. Se encostou em uma pilastra para retomar o fôlego. E para não perder mais tempo, colocou em prática suas aulas pole dancing. Estava hilária a tentativa de seduzir o acaso. O saguão parou para assistir ao show de horrores da nossa pequena.
Após retomar o fôlego, voltou a correr. E logo nos primeiros passos tropeçou. Misturaram-se sobre o chão de mármore todos os pertences que estavam na sua bolsa, inclusive seu orgulho e esperança no acaso. Seu ritual acabara de chegar ao fim. Um triste fim.
Ao levantar a cabeça, a primeira coisa que Anni viu foi o saquinho de açúcar. Tomou aquilo como um real sinal do acaso. Caminhou calmamente até o café, percorreu o caminho de volta e contou a cada passo os erros que cometeu. Ao chegar ao balcão ergueu sua mão para chamar a Garçonete, e quando ela chegou Anni lhe roubou um beijo.

6 respostas Até agora ↓
siamopalestra // Outubro 8, 2009 às 7:48 pm |
Hahaha… boa, Negralha!
Tenho certeza que isso nasceu de um café pós-almoço que tivemos outro dia.
Nati // Outubro 8, 2009 às 7:51 pm |
Amei Dani!!!!
Fico com essa frase… “Decidiu tanto como as coisas deveriam acontecer que não deixou espaço para o acaso agir. Talvez seja o momento de …”
…ser tachada de Louca por vc!! risos!!!
Beijo
Lala // Outubro 9, 2009 às 3:22 pm |
credo dani!!! que gay!
mas mto bem escrito! parabéns!
Marina Amaral // Outubro 11, 2009 às 12:45 am |
Talvez, Anni deveria me conhecer… Estive aberta ao acaso inúmeras vezes e te confesso que não há sensação melhor. Foi por acaso que encontrei “três mosqueteiros” em Floripa. E foi por acaso que vive dias inesquecíveis com um deles… Agora, só espero que o acaso me traga novas sensações, emoções e histórias casuais!
Ótimo texto!!!!
Grande bj
andre b // Outubro 13, 2009 às 5:51 pm |
eu sabia que ia terminar em lesbianismo! sabia! hahaha massa!
Ticiano // Dezembro 11, 2009 às 12:41 pm |
Maravilhoso texto. Cai aqui por acaso. Lendo A Insustentável Leveza do Ser, fui procurar o significado de Einmal ist keinmal e a busca me trouxe aqui. Quase sempre se cai em blogs por acaso né?
Sobre o texto. É um modo de viver. Tenho feito isso a vida toda (ao ler o texto percebi melhor) e quase nunca percebo as mulheres fazendo isso também. Me parecem muito alheias na grande maioria das vezes. Me consterna o alheamento!