Malandragem não se aprende. Ou você nasce com ela ou já era.

Ladrilhos Selaron - Arcos da Lapa RJ

Sou declaradamente um apaixonado pela boemia e, conseqüentemente, fã da figura do Malandro. Sim, Malandro merece respeito e letra maiúscula. Estou falando de figuras idôneas, engenheiros, magistrados, “diplomatis” como Seu Madruga, Mussum, Romário, Agostinho Carrara, Moreira, Bezerra e Dicró, Paulo César Pereio e tantos outros que sabem levar a vida de um jeito mais leve, tranquilo e sem lesar (quase) ninguém.

Rio de Janeiro, Bahia e Minas são ótimos celeiros de Malandro. Dizem até que existem escolas nestas cidades onde é possível tirar brevê para Malandragem.

Malandro vai ao samba, tem calça branca e camisa florida, chapéu, um bom papo na ponta da língua, o que, às vezes, ajuda a impressionar uma nega. Ajuda a sair com as ruivas, a beijar as loiras e as morenas e também a amar as feias. E uma observação: na cartilha de etiqueta do Malandro, ampolas de diurético devem ser servidas na companhia de copos tipo americano – isso ajuda a realçar o sabor da cerveja.

Se me permite, gostaria de contar a história de um rapaz que conheci esses dias: Augusto Neto, aspirante a Malandro e estudante de antropologia na FAAP, 22 anos de praia, um cara que se diz de esquerda e tesoureiro do Centro Acadêmico da sua faculdade. Seu grande feito no C.A. foi ter lutado e parado as aulas por 20 minutos para reivindicar uma cafeteira italiana para os alunos. Ele alegava que isso iria aumentar a concentração dos seus companheiros e companheiras durante as aulas.

Augusto gosta de frequentar um bar bem descolado que fica do outro lado da cidade, bem longe do bairro de onde ele mora. Durante o dia o bar é habitado por pessoas simples, trabalhadores que passam por lá no fim do expediente para tomar um rabo de galo, um birinight (www.birinight.com), uma pinga com mel e curtir um dedo de prosa. De noite aparecem os formadores de opinião, universitários, músicos e até artistas atraídos pela cerveja gelada e barata. (Será que o encontro de formadores de opinião e cerveja gelada atraem baratas?)

Um dia Augusto me contou que o que ele mais gosta no lugar é o tratamento. Gosta daquele sotaque nordestino no atendimento; adorou quando depois de algum tempo começaram a chamá-lo pelo nome – se sentia um rei. Ele dizia que até gostava daquele pano imundo que secava a mesa marcada pela transpiração do copo gelado.

Depois de muita propaganda do lugar, resolvi aceitar o convite do Augusto e tomar umas com ele nesse bar. Realmente o lugar era como ele descreveu. Mas faço questão de enriquecer o relato com alguns adendos: o lugar era – e deve ser até hoje – quente e abafado, sujo, com um leve aroma de fritura, desorganizado, mas muito seguro e incrivelmente confortável.

Com certeza ele não faz parte das indicações da Vejinha. Mas fique tranquilo e sossegada, se você nunca ouviu falar dele, mais cedo ou mais tarde, ouvirá – nem que seja por um blog insignificante como o meu.

Mas onde estávamos? Ah, no bar com nosso Wanna be a Malandro.
Sentamos, pedimos uma ampola que veio acompanhada de um bom assunto e uma porção de amendoins. O papo estava ótimo, mas era impossível não reparar nas pessoas que habitavam o lugar. Ao meu lado: um hippie que depois de vender alguns brincos parou para descansar e tomar um copo de água da torneira. Atrás do Augusto: uma menina – eu acho que era menina – e um cara que tinha a barba igualzinha a do Jack Sparrow. Ele estava até maquiado. Juro, fiquei hipnotizado me perguntando o que leva um cara a se caracterizar daquele jeito. Ele era tipo um anime do Piratas no Caribe. O pior é que o filha da puta deve pegar mais mulher do que eu. Foda.

Como perceberam pelo meu relato, era impossível não perder o foco naquele lugar rico de informações. Mas quando o Augusto se levantou para pegar uma cerveja no balcão – óbvio que lá não tem garçom – prestei atenção em uma coisa: achei estranho o Augusto pagar as cervejas com cartão de crédito internacional. Mais estranho foi cobrar R$ 7,00 por 600 ml de suco de cevada. A noite seguiu, mas eu fiquei com uma pulga atrás da orelha.

Semana passada, passando por lá durante a tarde, resolvi entrar e verificar o movimento do lugar. Pedi um risole, mas não tive coragem de comer. Foi então que reparei que no lugar não havia nenhum cartaz de cerveja com preço, nem valores dos petiscos. Nada. O preço era dado conforme análise do cara que estava atrás do balcão, o vendedor. Ou seja: ele olhava para você e julgava o quanto a sua figura poderia pagar pelo que pediu. E os valores também poderiam mudar dependendo do vendedor que você pegasse, que eram apenas 2 para atender de 5 a 10 pessoas durante o dia, e de 50 a 60 pessoas (mais o Jack Sparrow) durante a noite. Isso explicava porque eles cobravam R$ 2,40 pela cerveja para um taxista, por exemplo, e R$ 7,00 para o meu amigo.

É como diz a canção, “Malandro é Malandro e o Augusto é o que é”.

E para você que ficou curioso ou curiosa eu digo: paguei R$ 2,00 pelo risole e 4,50 pela cerveja. Tire suas próprias conclusões enquanto eu faço coro junto com o Chico para homenagear e invejar os verdadeiros bambas da Malandragem:

“Mas o malandro para valer, não espalha,
Aposentou a navalha, tem mulher e filho e tralha e tal.
Dizem as más línguas que ele até trabalha,
Mora lá longe chacoalha, no trem da central”

(Clique aqui e escute a música)

 

Ladrilhos Selaron - Arcos da Lapa RJ


 

 

 

7 respostas para Malandragem não se aprende. Ou você nasce com ela ou já era.

  1. Malandro é malandro, mané é mané. Sábias palavras!

    Ah, eu sempre gosto dos seus textos. Foda-se.
    rs

    Sério, Neguin. Mandou bem! Curti, ó! E certeza que o cara só te cobrou pouco pq viu a malandragem camuflada embaixo dessa pele preta! Ah, se viu!

    Beijocas,
    Re(visora)

  2. Houston, we have a genious.

    Perfeito, Negralhinha. Saudações malandras.

  3. Gossssxtei…
    mesmo o bar sendo sujinho e fedorento!

    hahaah! deveria ter mais tempo sem job! Sério…

    bjo bjo

  4. Mto bom, Dani!

    Olha, não sei se esse pirata que vc encontrou é o mesmo que eu conheço, mas dá uma olhada nos links:

    http://www.orkut.com.br/Main#Profile?uid=12872421343994628931

    http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=43784894

    tem até twitter:
    http://twitter.com/PirataDaBerrini

    Esse aí é o Pirata da Berrini e, até onde eu sei, ele perambula pela cidade vestido de pirata, trabalha na área administrativa de uma agência, e leva uma vida ‘normal’, apesar dessa sua idolatria um tanto quanto peculiar…

    Bjim

  5. Perfeito!
    Quando lançará seu livro com esses textos maravilhosos…
    Show de bola, dani.

    Beijão!

  6. Olha, legal o texto.. e quanto ao jack sparrow, certeza que é o tal do pirata da Berrini listado pelo amigo acima.. ele é mais jack sparrow que o proprio johnny Depp, isso porque eu o conheço de vista e ele vai mesmo trabalhar assim, vestido de pirata, com chapeu e tudo mais…. já o johnny depp nao deve usar aquela fantasia todo dia. hahahah

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